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Jiu-Jitsu: Origem, Técnicas, Faixas e Como Treinar

Jiu-jitsu é uma arte marcial de agarre que trabalha no chão, controlando o adversário por posição até chegar a uma finalização por estrangulamento ou torção articular. A versão esportiva moderna, o jiu-jitsu brasileiro, nasceu do judô Kodokan depois que instrutores japoneses levaram a arte ao Brasil no início do século XX. Não usa golpes traumáticos. Tudo o que abre mão em pé, ganha no solo.

Essa é a definição. O que vem depois dela é o que quase nenhuma página explica direito: como se ganha uma luta, o que realmente acontece num treino e quanto da história que todo mundo repete se sustenta nos documentos.

O jiu-jitsu em poucas linhas

  • O que é: arte de solo baseada em controle posicional, raspagens, chaves e estrangulamentos, treinada com luta livre diária contra resistência real.
  • De onde veio: do jujutsu japonês, organizado como judô Kodokan em 1882 e remodelado no Brasil a partir de 1914.
  • Como se vence: por finalização ou por pontos, seguindo uma tabela que hierarquiza as posições.
  • Graduação: branca, azul, roxa, marrom e preta, com faixas coral e vermelha acima delas.
  • Situação esportiva: várias federações privadas, nenhuma entidade mundial única e nenhum status olímpico.
  • Para quem serve: quem gosta de resolver problemas sob pressão e aguenta perder por um bom tempo.

A lógica posicional

Existe uma frase que todo professor repete: posição antes de finalização. Ela parece filosofia de tatame e não é. Está escrita na tabela de pontos.

Resposta rápida: no jiu-jitsu esportivo, montar vale 4 pontos, pegar as costas com os dois ganchos vale 4, passar a guarda vale 3 e derrubar, raspar ou encaixar o joelho na barriga valem 2 cada.

Cada uma dessas posições exige três segundos de controle estável para pontuar. Quem chega perto e não segura recebe uma vantagem, e as vantagens decidem uma quantidade enorme de lutas.

Por que as posições de cima valem mais

Repare no que a escala está dizendo. As posições mais caras são exatamente as que tiram do adversário a capacidade de reagir. Das costas e da montada, quem está embaixo tem quase nada.

Curiosamente, o cem quilos não vale ponto nenhum sozinho. Ele é o destino da passagem de guarda, e é a passagem que o regulamento paga.

A guarda, que é a assinatura da arte

A guarda é a posição de baixo, e é aqui que o jiu-jitsu se separa de todo o resto. Na guarda fechada os tornozelos se cruzam atrás das costas do adversário. Na meia-guarda, uma perna dele fica presa entre as suas. A guarda aberta reúne todo o restante, e cada variação tem nome: aranha, De la Riva, De la Riva invertida, laçada, X, borboleta e 50/50.

Do outro lado está a passagem. O toureio controla a calça e contorna as pernas. A passagem de joelho na linha atravessa a coxa na diagonal. O leg drag puxa uma perna para o outro lado e mata o ângulo da guarda, o que explica por que ele alimenta tantas tomadas de costas no jogo moderno.

Nenhum outro esporte de combate trata estar deitado de costas como posição de ataque. No jiu-jitsu, isso é metade do jogo.

As famílias de finalização

Toda finalização do jiu-jitsu cabe em três grupos, e entender os grupos vale mais do que decorar cinquenta nomes.

FamíliaExemplosO que atacaNome japonês de origem
EstrangulamentosMata-leão, triângulo, cruz, gravata de laço, ezequielCirculação ou via aéreaShime-waza
Chaves de braço e ombroArmlock, kimura, americana, omoplataCotovelo e ombroUde-hishigi e ude-garami
Chaves de pernaChave de pé reta, chave de joelho, chave de pé americana, heel hookTornozelo e joelhoAshi-garami

Estrangulamentos

São a especialidade da casa. O mata-leão é o mais conhecido e continua sendo o golpe mais eficiente do esporte em qualquer faixa. O triângulo usa as pernas, a cruz e a gravata de laço usam a gola do kimono, e o ezequiel usa a própria manga.

Chaves de braço e ombro

O armlock ataca o cotovelo pela hiperextensão. A kimura e a americana giram o ombro em sentidos opostos. A omoplata faz o mesmo trabalho da kimura, mas com as pernas, direto da guarda.

Vale saber por que o armlock aparece tanto nos dados de lesão: ele age sobre uma articulação que dobra num único sentido e não avisa antes de estourar. Bater cedo não é fraqueza, é engenharia.

Chaves de perna

O grupo que mais mudou nos últimos anos. A chave de pé reta é permitida em todas as faixas. Chave de joelho e chave de pé americana ficam restritas às faixas superiores. O heel hook tem regra própria, e ela mudou em 2021, como se explica mais adiante.

O que o esporte proíbe define tanto quanto o que permite. Nada de socos, nada de projeções que joguem a cabeça no chão, nada de chaves de coluna sem estrangulamento.

O treino de verdade

Quase todo mundo chega achando que vai aprender golpes. O que se aprende primeiro é ficar desconfortável sem entrar em pânico.

Como é uma aula

Uma aula de fundamentos gira em torno de uma hora. As turmas mistas costumam ter uma hora e meia, e as de competição passam disso. Dentro desse tempo: saudação, aquecimento com deslocamentos e quedas, bloco técnico com repetição, treino posicional e, no fim, o rola.

O rola é o que define o esporte. É luta livre com resistência quase total, na maioria dos treinos, e só é sustentável porque não existe golpe traumático.

Quanto se treina

Uma pesquisa com 140 praticantes, publicada na revista Sports, encontrou uma média de 3,7 dias e 7,63 horas por semana. Esse é o retrato do praticante constante, não do competidor.

O esforço é mais contínuo do que parece de fora. Em lutas simuladas de durações diferentes, a relação entre esforço e pausa foi medida entre 5 para 1 e 10 para 1, bem acima do que se mede no judô. Não existe descanso estrutural dentro da luta.

Quem compete lida com outra conta. O tempo de luta cresce com a faixa, chegando a dez minutos na preta, e um atleta pode precisar repetir isso quatro ou seis vezes num único dia de chave. É por isso que a preparação se monta sobre rounds longos repetidos, e não sobre séries curtas.

O que realmente machuca

O jiu-jitsu é uma das poucas artes marciais com literatura científica de verdade, e os números contrariam a sabedoria de vestiário.

Na mesma pesquisa com 140 praticantes, as regiões mais atingidas foram mãos e dedos, com 14,4% dos casos, seguidas de pés e dedos dos pés, com 10,7%. Entre as lesões com diagnóstico médico, as infecções de pele ficaram em primeiro lugar. Faixas brancas e azuis concentram as lesões de mão; das roxas para cima, o joelho passa a dominar.

Aquela lesão de dedo do primeiro ano tem explicação simples: iniciante agarra com força demais e com os dedos, em vez de usar o peso do corpo.

Três consequências práticas saem desses números.

  • Bata cedo. O toque é o sistema de segurança real do esporte, não uma gentileza, e o cotovelo não avisa antes de estourar.
  • Trate higiene como medicina. Infecção de pele lidera a lista de problemas com diagnóstico médico, à frente de qualquer articulação.
  • Aprenda o básico do uniforme. O nó da faixa parece detalhe e não é; o passo a passo está em como amarrar a faixa sem desatar no treino.

Sobre a orelha, que é uma preocupação clássica no Brasil: num estudo com 1.632 judocas de alto nível, mais da metade apresentava deformidade visível, e a prevalência subia com os anos de prática. Protetor de orelha é raro entre iniciantes e útil justamente para quem treina há mais tempo.

Sobre condicionamento, uma revisão de 58 estudos com quase 1.500 avaliados situa o consumo máximo de oxigênio dos praticantes homens entre 42 e 52 mililitros por quilo por minuto, com gordura corporal em torno de 12%. São números de atleta bem treinado, não de fundista. O jiu-jitsu cobra força de preensão e capacidade de repetir esforço, mais do que resistência longa.

O que o jiu-jitsu não é

Resposta rápida: jiu-jitsu não é luta livre esportiva nem MMA, porque é a única dessas três que se disputa com kimono, sem golpes de qualquer tipo e sem limite de tempo no chão.

Vale começar pelo guarda-chuva. Jiu-jitsu, judô, wrestling, sambo e luta livre pertencem todos à família do grappling, e o que os separa não é o repertório de golpes, e sim o que cada regulamento decide premiar.

Luta livre, a rival brasileira

A luta livre esportiva é a comparação mais importante e a menos feita fora do Brasil. Ela chegou ao Rio no início do século XX por via europeia, é derivada do catch wrestling, é disputada sem kimono e tem finalizações. Foi rival direta do jiu-jitsu desde os anos 1930, com uma disputa que era social tanto quanto técnica: o kimono custava caro, e isso separava quem treinava o quê.

Euclydes Hatem, o Mestre Tatu, é a figura central dessa história. A rivalidade atravessou décadas, passou por desafios televisionados nos anos 1990 e acabou empurrando os dois lados para dentro do MMA.

MMA, judô e sambo

O MMA, aliás, é um regulamento e não uma arte. O jiu-jitsu é uma de suas bases, e o papel dele lá mudou muito. Charles Oliveira, faixa-preta brasileiro, detém os recordes históricos de finalizações e de lutas encerradas antes do tempo no UFC, o que desmente a ideia de que o jiu-jitsu morreu no MMA. Ao mesmo tempo, o especialista puro já não vence sozinho: Mackenzie Dern acumulou títulos mundiais de jiu-jitsu por anos e só conquistou um cinturão do UFC em outubro de 2025, por decisão e não por finalização.

E há o judô, que não é o mesmo esporte mesmo compartilhando origem, vocabulário e metade das técnicas. A diferença cabe numa frase: o judô montou a pontuação em torno da projeção, e o jiu-jitsu montou em torno do que acontece depois dela. A relação entre os dois está detalhada no guia de judô.

O sambo fecha a lista e é o contraste mais afiado de todos. Ele é rico em chaves de perna e proíbe estrangulamento, que é justamente a especialidade do jiu-jitsu. Praticamente a imagem espelhada.

Kimono, faixa e o resto do equipamento

Começar é barato. Gastar demais é facílimo.

O kimono e as regras que ele precisa cumprir

O kimono é a peça central. O regulamento exige tecido de algodão, cor única entre branco, azul royal e preto, mangas terminando a no máximo dois centímetros do punho e calça a no máximo dois centímetros do tornozelo. A faixa tem de quatro a cinco centímetros de largura e dá duas voltas na cintura. Esses números valem mais que qualquer opinião de loja, porque kimono fora da norma barra o atleta na pesagem.

O trançado importa menos do que dizem. O pearl weave de cerca de 450 gramas por metro quadrado atende praticamente qualquer necessidade de treino. Um kimono limpo vale mais que três que você não consegue lavar, e a linha de kimonos e gis de Jiu-Jitsu resolve isso melhor do que uma compra premium feita antes de criar o hábito.

Compre pensando em durar, não em impressionar.

A numeração funciona diferente de roupa comum. Adulto masculino vai de A0 a A6, feminino de F1 a F5 e infantil de M1 a M4, sempre combinando altura e peso em vez de medir o peito.

Lavar bem é metade do equipamento. O kimono precisa chegar limpo, seco e sem cheiro, e essa regra vale em qualquer nível, do treino de terça ao Mundial. Trocar quando a gola ceder, não quando sair uma estampa nova.

O que comprar e o que deixar para depois

Sem kimono, as regras são igualmente específicas: camisa elástica justa e bermuda sem bolso, sem botão, sem zíper e sem metal, terminando entre a metade da coxa e o joelho. A razão é prática: dedos das mãos e dos pés entram em qualquer abertura, e essas são justamente as duas regiões mais lesionadas no treino.

Preço é a outra pergunta constante, e quase ninguém responde com honestidade. Varia muito por cidade e por país, e nenhuma federação publica números, então qualquer valor exato é estimativa. O que é constante é o formato do gasto: uma mensalidade acima da de academia comum, uma compra inicial de material e pouquíssima coisa depois.

ItemPrecisa mesmo?Por quê
Um kimono na cor regulamentarSimUm basta; a exigência é estar limpo e dentro das medidas
Protetor bucal sob medidaSimO jiu-jitsu tem a maior prevalência de trauma dentário entre os esportes de combate estudados
Rash guardSimObrigatório no no-gi e recomendado por médicos como barreira contra infecções de pele
ChineloSimImpede levar sujeira do chão para o tatame
Kimono pesado de competiçãoNão, no inícioSó faz sentido depois de já competir
Joelheira sem diagnósticoNãoSem lesão identificada, não resolve nada

Sobre o rash guard, vale insistir num ponto que costuma ser tratado como estética. Pele raspada em tatame compartilhado é a porta de entrada das infecções, e é por isso que os rash guards de Jiu-Jitsu aparecem tanto no regulamento de competição quanto nas recomendações médicas.

O protetor bucal merece um parágrafo próprio porque é o item mais ignorado e o de melhor retorno. Entre os esportes de combate estudados por médicos de ringue, o jiu-jitsu apresenta a maior prevalência de trauma dentário, com 52,9% dos praticantes. Os modelos de moldar em água quente perdem boa parte da espessura no processo, e a recomendação técnica é o protetor feito sob medida.

Já a caneleira e a joelheira, tão vendidas no balcão, só fazem sentido com uma lesão diagnosticada. Sem isso, viram peso morto na mochila.

Compre para o treino que você realmente faz.

Para as mãos, uma fita fina nos dedos resolve a maior parte do incômodo do primeiro ano. E vale ter dois pares de chinelo, um para o vestiário e outro para o resto, porque a etiqueta de tatame existe por razão médica e não por capricho.

Equipamento de jiu-jitsu: kimonos, rashguards e acessórios na RING KONG
Equipamento de Jiu-Jitsu

De onde veio o jiu-jitsu

A palavra japonesa se divide em duas partes. quer dizer flexibilidade, no sentido de ceder a uma força em vez de bater de frente com ela. Jutsu quer dizer arte ou técnica. A tradução corrente, arte suave, é uma versão gentil de uma ideia bem dura.

O jujutsu como escola organizada pertence sobretudo ao período Edo japonês, entre 1603 e 1868, quando a paz transformou métodos de campo de batalha em programas de ensino. Em 1882 Kanō Jigorō abriu o Kodokan e chamou seu método de judô, trocando jutsu por , técnica por caminho.

Um detalhe que quase ninguém conta: o trabalho de solo estava sendo restringido por regra no Japão exatamente na década em que ele passou a ser desenvolvido no Brasil. O Kodokan limitou o solo em 1925 e acabou com os empates em 1929, justamente para desestimular o jogo passivo no chão.

Mitsuyo Maeda

Mitsuyo Maeda nasceu em 1878, na província de Aomori, entrou no Kodokan em 1897 e chegou ao terceiro dan em 1901. A partir de 1907 rodou as Américas e a Europa como lutador profissional, usando o nome artístico de Conde Koma. Chegou ao Brasil em 1914, fixou-se em Belém do Pará a partir do fim de 1915 e morreu na cidade em 1941.

O mês e o porto dessa chegada são disputados. Uma versão indica Santos em julho; outra, Porto Alegre em novembro. O ano é sólido; o resto não é.

Quem ensinou os primeiros brasileiros

Maeda não foi o primeiro japonês a ensinar no Brasil. Sada Miyako já dava aulas no Rio desde 1908 e teve contrato com a Marinha a partir de 1909. Mario Aleixo mantinha turmas no Rio desde 1913.

A ligação direta entre Maeda e Carlos Gracie também é mais fina do que se conta. A imprensa de Belém registra, em junho de 1920, a graduação de cinco alunos de Maeda, entre eles Jacyntho Ferro. Em junho de 1921, outro anúncio descreve um Gracie como aluno de Ferro, e não de Maeda. Vários historiadores sustentam que Ferro foi o professor de fato e desapareceu da versão oficial.

O trabalho acadêmico de José Cairus, publicado na Revista Tempo e Argumento, reconstrói esse período a partir de jornais da época em vez de memórias de família, e mostra um quadro bem mais confuso do que o relato tradicional. As fontes se contradizem e nenhuma encerra o assunto.

A linha que ficou fora da academia Gracie

Existe uma segunda linhagem brasileira, que passa por Luiz França e Oswaldo Fadda. Fadda recebeu a graduação de instrutor por volta de 1942 e abriu a Academia Fadda em janeiro de 1950, ensinando na zona norte do Rio, muitas vezes de graça, com um currículo apoiado em chaves de pé que as academias Gracie desprezavam.

As equipes de Fadda enfrentaram equipes Gracie pelo menos duas vezes nos anos 1950, e pelo menos um desses confrontos terminou com vitória de Fadda sem contestação. Quando a Federação de Jiu-Jitsu da Guanabara foi fundada em 25 de abril de 1967, Fadda era um dos cinco articuladores, ao lado de Hélio Gracie.

Se França aprendeu com Maeda, ninguém conseguiu provar. Pesquisadores brasileiros procuram essa documentação há anos e não a encontraram. O ponto contestado não diminui Fadda: apenas transfere a importância dele da pureza de linhagem para o que está documentado, que são as vitórias e a fundação da federação.

AnoO que aconteceu
1882Kanō Jigorō funda o Kodokan e batiza seu método de judô
1908Sada Miyako começa a ensinar no Rio de Janeiro
1914Mitsuyo Maeda chega ao Brasil
1930Abre no Rio a academia que mais tarde levaria o nome Gracie
1950Oswaldo Fadda inaugura sua academia na zona norte carioca
1967Fundação da Federação de Jiu-Jitsu da Guanabara
1973O jiu-jitsu é reconhecido legalmente como esporte no Brasil
1996Primeira edição do Mundial

Um erro que se repete em quase toda academia

A afirmação comum: chave de perna torcional, o heel hook, é proibida no jiu-jitsu esportivo, ponto final.

O que a evidência sustenta: deixou de ser. O comunicado oficial da IBJJF liberou o heel hook e o knee reaping para faixas marrom e preta adultas a partir de 1º de janeiro de 2021, exclusivamente nas divisões sem kimono. Continuam proibidos com kimono, em todas as faixas, e proibidos para roxa, azul e branca em qualquer formato.

A consequência prática é enorme e pouco comentada. O mesmo faixa-marrom treina um jogo de pernas completamente diferente conforme compita com ou sem kimono, no mesmo campeonato e no mesmo fim de semana. Foi essa regra, mais do que qualquer outra, que dividiu o jiu-jitsu moderno em duas culturas técnicas.

Regra não é burocracia neste esporte. Mude a tabela de pontos e o jiu-jitsu muda de cara em menos de um ano.

Competição: quem organiza o quê

Não existe uma federação mundial única no jiu-jitsu, e é daí que vem boa parte da confusão.

A IBJJF organiza o Mundial, o Pan e o Europeu, com e sem kimono. O tempo de luta cresce por faixa: cinco minutos na branca, seis na azul, sete na roxa, oito na marrom e dez na preta. Pontos, vantagens e punições decidem tudo o que não termina em finalização.

O ADCC segue outro caminho. Nas lutas classificatórias não há pontos positivos nos primeiros cinco minutos, e nas finais não há nos primeiros dez. Puxar guarda gera punição. Montada vale 2 em vez de 4. O resultado é um estilo muito mais de pé e muito mais agressivo na caça à finalização.

Há ainda torneios só de finalização, sem pontuação nenhuma, e prorrogações em que cada atleta começa de uma posição de ataque predefinida. Um mesmo lutador pode ser campeão sob uma regra e desconhecido sob outra.

As categorias de peso

CategoriaAdulto masculino, sem kimonoAdulto feminino, sem kimono
Galo55,50 kg46,50 kg
Pluma61,50 kg51,50 kg
Pena67,50 kg56,50 kg
Leve73,50 kg61,50 kg
Médio79,50 kg66,50 kg
Meio-pesado85,50 kg71,50 kg
Pesado91,50 kg76,50 kg
Super-pesado97,50 kgsem limite
Pesadíssimosem limitenão se aplica

Na disputa com kimono a pesagem inclui o próprio kimono, o que muda a conta e pega muito estreante de surpresa.

Graduação: faixas, graus e tempo

A escada adulta vai de branca a azul, roxa, marrom e preta. Acima da preta vêm a vermelha e preta no sétimo grau, a vermelha e branca no oitavo e a vermelha no nono. O décimo grau ficou reservado aos cinco irmãos Gracie e não pode mais ser concedido.

Os prazos não são costume de academia. A faixa azul exige idade mínima de dezesseis anos. São dois anos na azul, um ano e meio na roxa e um ano na marrom como tempo mínimo de permanência, dispensados para campeões mundiais adultos. A preta exige dezoito anos de idade, e a coral chega depois de trinta e um anos de faixa-preta.

Nada disso é negociável numa academia filiada.

Isso é piso, não cronograma. A maioria demora bem mais, e a variação entre academias é grande o bastante para que qualquer número único engane. Quem promete faixa preta em prazo curto está vendendo alguma coisa.

É também aqui que mora o equívoco mais comum entre iniciantes: achar que jiu-jitsu é para quem já é forte ou flexível. Não é. A progressão é lenta justamente porque o que se desenvolve é leitura de posição, e isso não se acelera com academia de musculação.

Palavras, gestos e etiqueta

O jiu-jitsu funciona com uma mistura de português, japonês e inglês que ninguém explica no primeiro dia.

  • Rolar: lutar livremente no fim da aula.
  • Bater: desistir, com a mão no parceiro, no tatame ou com a voz.
  • Professor: instrutor faixa-preta.
  • Raspagem: inverter a posição partindo de baixo.
  • Passagem: ultrapassar as pernas do adversário.
  • Mata-leão: estrangulamento pelas costas.

A etiqueta é, no fundo, controle de infecção vestido de cerimônia.

  • Chinelo fora do tatame e pé descalço dentro.
  • Unhas das mãos e dos pés sempre curtas.
  • Kimono lavado depois de cada treino, e a faixa também, apesar da superstição contrária, seguindo o método correto de lavagem para não encolher a peça.
  • Nunca treinar com micose ou ferida aberta.
  • Brincos, correntes e anéis fora antes de pisar no tatame.
  • Soltar a finalização no instante em que o parceiro bate.

Uma palavra merece aviso. "Oss" é usado o tempo todo nas academias como cumprimento e como resposta para qualquer coisa. Em japonês é uma expressão brusca, fortemente marcada como masculina e com origem militar, e está ausente da maioria dos dojôs tradicionais japoneses. Não significa o que a maior parte dos praticantes imagina.

Já o corredor polonês das graduações, apesar do nome, não é tradição brasileira. Ele foi introduzido na Califórnia no fim dos anos 1990, e instrutores brasileiros veteranos confirmam que não existia no Brasil dos anos 1960. Um estudo com 605 praticantes não achou nenhuma diferença de integração de grupo entre quem passou pelo corredor e quem não passou.

O jiu-jitsu no mundo lusófono

O português é, em número de praticantes e de buscas, a língua mais forte do jiu-jitsu no mundo. Isso tem consequências que vão além do orgulho.

No Brasil, o cenário institucional é plural e às vezes confuso. A Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) é a entidade ligada ao circuito da IBJJF e mantém ranking nacional, registro de atletas e certificação de faixas-pretas, mas existem outras confederações concorrentes, além de federações estaduais com reconhecimento próprio. Uma pesquisa domiciliar nacional já estimou 1,3% da população brasileira praticando jiu-jitsu, algo em torno de 2,5 milhões de pessoas, embora esse número tenha mais de uma década.

Em Portugal a situação é mais enxuta e, curiosamente, mais formalizada. O Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) reconhece a federação portuguesa de jiu-jitsu brasileiro para efeitos de formação de treinadores. O país virou hub europeu do esporte: o Europeu da IBJJF passou a ser disputado em Lisboa e reuniu cerca de 6.400 atletas em 2026, o maior campo de sua história.

Angola e o resto da lusofonia

Angola é a nação lusófona africana mais relevante no esporte. João Roque venceu o Mundial da IBJJF na faixa-preta em 1997, o que o coloca entre os pouquíssimos campeões mundiais adultos nascidos na África. Moçambique e Cabo Verde ainda têm presença pequena e pouco documentada, e é mais honesto dizer isso do que inventar cenário.

Vale registrar uma assimetria: Portugal é hoje sede e não celeiro. Não há campeão mundial adulto de faixa-preta nascido em Portugal, e a base competitiva do país se apoia muito em atletas brasileiros radicados por lá.

Entre os nomes que dominam a era atual, os brasileiros seguem no centro. Marcus Almeida tem treze títulos mundiais, recorde masculino. Gabi Pessanha chegou ao décimo primeiro em junho de 2026 e igualou o recorde de absolutos. Mayssa Bastos conquistou o sétimo título consecutivo sem nunca ter sido finalizada na carreira. Fora do Brasil, Gordon Ryan soma cinco títulos do ADCC, a galesa Ffion Davies foi a primeira campeã do ADCC nascida na Grã-Bretanha e a australiana Adele Fornarino fez dose dupla em 2024.

O Brasil produz mais campeões do que qualquer outro país e ainda importa quase todo o dinheiro do esporte profissional. Essas duas frases dizem muito sobre o jiu-jitsu de hoje.

Para quem serve o jiu-jitsu e como escolher uma academia

Esta é a parte que quase nenhuma página de referência escreve, e é exatamente a que interessa a quem está parado na porta de uma academia.

O jiu-jitsu combina com quem gosta de resolver problemas devagar e não precisa ser bom rápido. A curva é longa, o retorno é imediato e sem piedade, e o primeiro ano é feito principalmente de derrotas. Se isso soa interessante em vez de humilhante, o esporte é para você.

Funciona bem para gente miúda e para gente mais velha, porque não há golpe traumático e a técnica se acumula por décadas. É trabalho físico duro sem pancada repetida na cabeça, embora os dados de concussão mostrem que o risco não é zero, sobretudo entre iniciantes.

Não é para você se quiser defesa pessoal em pé em poucos meses, se contato físico próximo com desconhecidos incomodar muito ou se precisar ver progresso visível todo mês. Nenhuma dessas coisas é defeito. Só não combina com o funcionamento deste esporte.

Na visita a uma academia, três sinais dizem quase tudo.

  1. Olhe os iniciantes, não os faixas-pretas. O aluno novo é corrigido na posição ou é jogado em rola duro na primeira semana?
  2. Olhe o tatame e o vestiário. Com os dados de infecção na mesa, limpeza é indicador de segurança e não capricho.
  3. Pergunte quem gradua e quanto tempo leva cada faixa. Quem responde em meses está dizendo que a faixa dele vale pouco.

Os sinais de alerta se leem igualmente rápido. Calendário de graduação garantido. Professor que não sabe nomear a própria linhagem. Lesão apresentada como prova de dedicação. Pressão para competir antes de saber se mover em segurança.

Dois avisos finais antes do primeiro treino. Você vai terminar dolorido em músculos que não sabia que existiam, principalmente pescoço e mãos. E ninguém vai se importar que você seja ruim, porque todo mundo ali foi ruim por muito tempo antes.

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